Cuidadores à beira de um ataque de nervos

Este tópico iria originalmente ao ar apenas no Quando Pais Viram Filhos; no entanto, vendo o sofrimento de tantas pessoas aqui, decidi replicá-lo.

Antes de mais nada, peço que não pensem que tive a intenção de ser pedante ou o dono da verdade; apenas tento ajudar a quem precisa de uma mudança em sua vida.

Boa leitura!

Cuidadores à beira de um ataque de nervos

O título deste post é uma brincadeira com o clássico filme de Almodóvar, mas o assunto é sério e já foi abordado algumas vezes aqui: o estresse do cuidador.

Como já disse anteriormente, o cuidador é, em minha opinião, o elo mais fraco na corrente que liga a família de um portador de alzheimer: enquanto o portador cedo ou tarde deixará de ter consciência do próprio quadro clínico, não raro se tornando uma criança feliz como minha mãe, o cuidador carrega consigo todo o fardo da doença; será ele o responsável por lidar diretamente com o idoso, prestando os cuidados básicos como tomar conta da higiene pessoal, alimentação e bem estar.

Indo além dos cuidados necessários ao dia a dia, a doença de Alzheimer cria um elo afetivo muito forte entre o portador e o cuidador; isso faz com que cada salto da doença transforme-se em uma verdadeira agressão ao cuidador, que vê aquela pessoa tão querida se afastando em sua mente.

Isso trás um impacto incomensurável na qualidade de vida do cuidador. A carga emocional de se cuidar de um idoso demenciado é tão pesada que em um intervalo de poucos meses os efeitos físicos são visíveis: esgotamento físico, depressão, perda ou aumento de peso, gastrite, diminuição da libido, insônia, debilidade do sistema imunológico... You name it, tudo o que você puder imaginar como efeito colateral, tem probabilidade de acontecer. Pior: viver meses, anos a fio sob a tensão de se cuidar sozinho do idoso acaba incorrendo no que é conhecido como síndrome de burnout.

Mas o que fazer então ? Os meios para se aliviar esta sobrecarga são vários e bem conhecidos: dividir a função de cuidador com outras pessoas, praticar exercícios físicos, reservar tempo para si mesmo, viajar por alguns dias, arrumar um hobby... Basicamente qualquer atividade que tire o seu foco da tarefa de cuidar de um portador de DA é válida como tratamento. Contudo, tudo isso passa a ser demagogia se o próprio cuidador não quiser se ajudar.

É desolador ver que a maioria esmagadora dos e-mails que recebo são escritos num tom pesado, de desespero, lúgrebe até. Os cuidadores que me escrevem estão geralmente tão presos a sua própria penúria que não conseguiriam enxergar a saída para ela mesmo que houvesse um letreiro em neon cor-de-rosa anunciando-a; grande parte dos cuidadores tem uma dificuldade tão grande de transpor a fase da auto-comiseração que nem um pelotão inteiro de psicólogos e terapeutas conseguiriam ajudá-los.

"Fase da negação ? Do que diabos você está falando, Rodrigo ?" dirá você agora; eu explico:

Após todos estes anos como cuidador de minha mãe cheguei a conclusão que é possível dividir as fases pelo qual passam os familiares de um portador de Alzheimer em três: o choque ("Alzheimer ? Não é possível! Minha mãe/pai se foi!"), a auto-comiseração ou negação ("porque isso aconteceu comigo ? porque estou sendo punido ? Logo ele voltará a ser como antes!") e o compreensão ou aceitação ("É uma nova fase que veio pra ficar, vou lidar da melhor forma que puder").

Como a médica com a qual me tratei logo no início da doença de minha mãe disse, o choque de se receber uma notícia tão dura é muitas vezes similar ao choque da perda física do ente querido; ao menos no meu caso foi, vendo minha mãe se transformando completamente do dia para a noite. No entanto, em pouco tempo o trauma se dissipa e o comum é que passemos a fase da auto-comiseração e é aí que mora o problema...

É preciso que o portador compreenda a doença, consiga ver, perceber que isso não é um castigo divino nem que ele deve sofrer pelo resto de seus dias por ter perdido velhinho da forma como ele era. Eu passei por isso, minhas irmãs entenderam isso também e meu pai demorou anos, mas conseguiu sair desta etapa; contudo, o que vejo levas de familiares que convivem algumas vezes há uma decada com a doença e ainda assim se entregam ao auto-flagelo.

Se você se viu nos parágrafos acima, saiba que de nada adiantará procurar formas de aliviar a si mesmo enquanto não houver uma mudança de postura que permita que você olhe pro Alzheimer não como uma prisão, mas como um fato novo em sua vida ao qual você deve adequá-lo a sua realidade e não o inverso. Imagine só: como você irá descansar em uma viagem se sentindo culpado por ter deixado o velhinho em casa ?

Espero que você não veja este texto como uma lição de moral ou mesmo como sendo dessensibilizado. Lembre-se que um dia também estive em seus sapatos; quero apenas que você e milhares de outros cuidadores passem a olhar para os seus velhinhos de forma diferente, com alegria e ternura, assim como fizemos em casa

Eu sei que temos que mudar de comportamento e atitude, que devemos encarar de uma maneira mais tranquila, até mesmo para ajudar, do contrário a gente só atrapalha, mas eu não consigo.... Eu ajudo meu irmão (que é hoje o cuidador!), às vezes não quero ir ver minha mãe... pq td vez que vou volto mais triste e impressionada!!! Hoje mesmo fui lá vê-la... está tão magra, tão debilitada!!! Me deixa mais angustiada e nervosa ver o que a doença está fazendo com ela. Meu marido fala muito comigo, fala que eu tenho que fazer o que eu posso, que tenho que ficar mais tempo com ela, pq ele sente que ela não vai ficar muito tempo com a gente ainda, mas eu sinceramente não tenho vontade, não queria guardar na minha lembrança a imagem que vejo dela hoje... será que estou sendo errada agindo assim??? Como faço para encarar de uma forma natural??? Eu não sei!!! e me sinto aguniada com td isto! minha cabeça quase pira de tanto que recriminar, me sinto uma filha desnaturada... mesmo sabendo que eu faço o que consigo e que tento ajudá-la de todas as formas que consigo... Desculpe o desabafo é que hoje o dia foi difícil
Bjs e fiquem com Deus!!!
Ione

Ione

Minha mãe acabou de deitar, então resolvi entrar no site do alzeimer, para achar uma resposta para mim. Há momentos em que vejo me tunel profundo sem saida. Minha mãe como tantos doentes , levanta-se muito cedo, veste-se vai ao banheiro fazer suas necessidades fisiológicas , molha o cabelo com a água da torneira , procura suas chaves , dentaduras e óculos todos os dias. Para ela já tomou banho, fez as primeiras refeições, pega sua bolsa e quer sair para a rua. Mora em sua casa , nos fundos da casa de minha irmã. è muito autoritária, não aceita opinião dos filhos e netos. Faz essa rottina diária. Caso nós não nos levantemos cedo. Ela sai normalmente sem alimentação, quando vamos dar-lhe as refeições ela diz já estar alimentada.consegui uma pessoa para cuidar dela nos momentos em que estamos trabalhando , ela não aceita. Diz para nós que faz tudo sózinha.Mente muito coisa que nunca fazia em seu estado normal.Trago ela para minha casa nos finais de semana e feriados. Um dia basta para que ela agite todos, pois, quer ir embora para sua casa. è bem escandolosa quando quer alhuma coisa, é difícil dizer isto , mas o fato é que é bem real.Estamos tratando dela a mais de 2 anos com medicamentos como Excelon, Alois e um calmante prescrito pelo médico.Assim mesmo ela é muito agitada. Tenho até muita paciência , para com ela, mas, em certos momentos me sinto com uma vespinha sem rumo. Desculpe o desabafo, mas gostaria de trocar idéias, de como aguentá-la em certos momentos. Obrigado. Li seu blog de comentários, resolvi então desabafar e contar um pouco de minha camonhada. Até Breve . Aguardo notícias.

Olá Carmen,

Como disse no título, não existe fórmula mágica para modificar o comportamento de uma pessoa. Algo que é marcante em um portador de Alzheimer é o fato de que a doença costuma acentuar os traços mais marcantes da personalidade de uma pessoa: se o doente sempre foi turrão e mandão, será mais teimoso ainda; se ele ela bem homorado e amoroso, continuará sendo desta forma.

Assim, se a sua mãe sempre foi independente e e autoritária, não há motivo para que ela mudasse seu comportamento. Se ela não tem consciência do próprio quadro clínico a situação piora ainda mais, pois ela não verá motivos para que aja de forma diferente do que está acostumada há anos; por isso eles ficam nervosos e agressivos: você está querendo que ele faça algo contra sua vontade. Eu inclusive escrevi um texto sobre isso hoje eu meu (outro) blog.

Mesmo quando você diz que ela mente, deve entender uma coisa: como nos explicou uma vez o meu geriatra, a mente de um portador de DA cria fantasias para preencher o espaço deixado pelas memórias que se foram; assim, ela "inventa" histórias e situações que jamais aconteceram e que parecem até absurdas, mas que para o idoso são vívidas e reais; contrariá-las não é a melhor anternativa, já que eles realmente acreditam nestas histórias...

Outra dica: se a sua mãe for igual a minha, tirá-la de casa é a pior coisa a ser feita. Os velhinhos se habituam à suas casas, é um lugar onde eles conhecem e se sentem seguros. Quando você a leva para sua casa, a tendência é que ela se agite e fiquea nervosa; por mais que ela tenha ido te visitar, entenda que sua casa passou a ser um local estranho à ela, um lugar onde ela não consegue se localizar. É extremamente normal isso deles quererem ir para casa. Infelizmente nós fomos obrigados a restringir as visitas de minha mãe até a casa de minha irmã para poucas horas, no máximo; assim que ela volta para casa, a agitação e o nervosismo se dissipam.

Tente fazer o contrário: ao invés de levar sua mãe até sua casa, passe a visitá-la na casa dela; se sua irmã é a cuidadora principal, isso continuará fazendo com que você tire a sobrecarga dela e sua mãe se agitará menos. Você até pode sair e levá-la para um passeio, mas deixando claro que é uma saída breve e que logo voltarão para casa; desta forma ela não se agitará tanto.

Um grande abraço,

Rodrigo
http://www.quandopaisviramfilhos.com.br

imagem de Laura Botelho

Rodrigo, é exatamente sobre isso que tento desesperadamente falar nesse BLOG - comentar sobre os textos de sofrimento nos depoimentos desses cuidadores, no desanimo, na tristeza em suas palavras...

Gostaria que houvesse uma mudança no comportamento desses seres sobrecarregados = Cuidadores.

Pela enquete que abri nesse site (já com esse objetivo) para identificar o grau de sofrimento e depressão em que se encontram, é fácil observar a estafa mental pelo número de votos nas frases que iniciam com "estou cansada", "estou no limite", "estou sozinha"...
Quase não há votos no "estou aprendendo", "sou bem estruturada"...
Isso não é bom...

Sabemos que "a pimenta só arde nos olhos dos outros" e que para os que estão de fora a coisa parece fácil... mas sabemos (eu e o Rodrigo) que não é assim, somos filhos de doentes de Alzheimer como vcs!!! Tive dois casos de Alzheimer na família! Se vc está estafado com um, imagine receber a notícia que há outro doente chegando?!!!

E é por isso que estamos aqui, para dizer que mesmo sendo difícil, há sempre um caminho que pode amenizar, pode melhorar a qualidade da vida desses CUIDADORES. Basta querer aprender.

Tudo na vida é questão de querer ver as coisas de uma outra maneira.
Se vc insiste na mesma postura, terá sempre o mesmo resultado.
Mude a forma de pensar e aja diferente e sua vida mudará.

Valeu Rodrigo, obrigada pela força!

Laura Botelho
http://alzheimeradoencadaalma.spaces.live.com
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